
I
Eis-me aqui crucificado novamente nesta janela escura
que se dissolve
ao som de uma canção qualquer
entre as mil janelas claras de tantos edifícios.
É noite, eu sempre soube que era noite
mas nunca soube tanto como agora.
II
Absorto, dentro da noite eu pensava a própria noite.
Fiz-me coisa, coisa me fizeram; aceitei-me sem saber
onde encontrar o porquê de mim no vasto maquinário.
Perdi-me. Entre sapos e estrelas me perdi
e fui-me escurecendo aos poucos, como um bicho que apodrece.
Se levei a vida para o glabro rendez-vous dos metafísicos,
engordurei-a de espasmos sem parentes; e a fiz tão só
como um cacto no deserto em que só os ratos passeiam
ou como esse luar que naufragou no olhar do louco.
Absorto, dentro da noite eu pensava a própria noite.
III
Morres, todas as vezes
em que o mundo é simplificado como a lâmina de uma faca
que não cortou laranja ou boi, mas continuou terrivelmente faca
nas dobras de um casaco ou pensamento.
1959
Moacyr Félix
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